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Matrizes de Precificação
▬ ARTIGO TÉCNICO

Matriz de Margem × Matriz de Sensibilidade

Precificação é um dos temas que mais gera apreensão no varejo farmacêutico. Parece trabalhoso demais, difícil demais, muitas categorias, milhares de itens e quase impossível acompanhar o preço das grandes redes. Na prática, não é bem assim. Precificar com competitividade exige método — não esforço sobre-humano. E o método começa pelo cruzamento de duas matrizes.

Duas matrizes, dois propósitos

Precificação não é fórmula única. É a combinação ordenada de duas decisões: quanto se quer ganhar e quanto se pode arriscar. Cada uma dessas decisões tem uma matriz que organiza a resposta.

As duas matrizes do método
Matriz de Margem (Categoria × Curva ABC) — define o intervalo de margem-alvo para cada combinação de categoria e curva. É o que estabelece o preço sugerido.

Matriz de Sensibilidade (Curva × Faixa de Preço) — classifica o quanto o consumidor reage à variação de preço de cada produto. É o que estabelece onde dedicar esforço de análise e quanto o preço pode variar.

As duas não competem entre si — elas operam em sequência. A Matriz de Margem fornece o ponto de chegada; a Matriz de Sensibilidade fornece a tolerância de movimento em torno desse ponto.

Onde se quer chegar — Categoria × Curva ABC

A Matriz de Margem cruza dois eixos: categoria do produto e curva ABC. Cada combinação define uma faixa de margem-alvo que serve como referência para a precificação.

Categoria AA A B C D
Ético17–25%17–25%20–30%25–35%25–35%
Genérico50–60%50–60%55–65%60–75%60–75%
Similar50–60%50–60%55–65%60–75%60–75%
Não Medicamento20–30%20–30%25–35%35–45%35–45%
Conveniência50–60%50–60%60–70%70–80%70–80%
Volumoso20–30%20–30%25–35%35–45%35–45%

A lógica das curvas é estrutural. Produtos de curva AA e A têm giro alto e o consumidor compara preço com frequência — por isso operam com margem menor. Curvas C e D giram pouco, o consumidor compara pouco, e a margem pode ser maior. A curva B é o equilíbrio entre giro e margem.

O preço sugerido nasce daqui: custo médio aplicado à margem da matriz. Esse é o preço de referência da farmácia. O preço praticado pode ser igual, ou ajustado para concorrência — mas o preço sugerido continua sendo o ponto de partida do método.

O quanto se pode arriscar — Curva × Faixa de Preço

A Matriz de Sensibilidade cruza curva ABC e faixa de preço para classificar quanto o consumidor reage à variação de preço de cada produto.

Curva Até R$ 19,99 R$ 20–49,99 R$ 50–74,99 R$ 75–99,99 R$ 100–199,99 Acima R$ 200
AASensívelSuper SensívelUltra SensívelUltra SensívelUltra SensívelUltra Sensível
ASensívelSensívelSuper SensívelUltra SensívelUltra SensívelUltra Sensível
BPouco SensívelPouco SensívelSensívelSuper SensívelSuper SensívelUltra Sensível
CInsensívelInsensívelPouco SensívelSensívelSuper SensívelSuper Sensível
DInsensívelInsensívelInsensívelPouco SensívelSensívelSuper Sensível

A lógica é dupla: quanto mais alta a curva e mais alta a faixa de preço, mais o cliente compara. Uma dipirona de R$ 5 (curva AA, faixa baixa) é Sensível, mas tolera pequenas variações. Um produto de R$ 200+ é monitorado pelo cliente — qualquer diferença pesa na decisão de compra.

A sensibilidade orienta onde dedicar esforço de pesquisa de concorrência. Não é viável pesquisar todos os produtos da farmácia. A matriz mostra onde a pesquisa é obrigatória (Ultra Sensível, Super Sensível) e onde a loja pode operar de forma mais automatizada (Pouco Sensível, Insensível).

Como as duas matrizes operam em sequência

As duas matrizes não substituem uma a outra. Elas operam em sequência dentro do método de precificação:

A sequência operacional
1. Matriz de Margem define o preço sugerido com base em custo médio × margem-alvo
2. Matriz de Sensibilidade classifica cada produto pela reação do cliente à variação de preço
3. Regras de pesquisa são derivadas da sensibilidade — define onde a loja olha o concorrente
4. Tolerância de preço define o quanto o preço pode variar em relação ao mercado
5. Alçada de desconto protege a margem na ponta — onde a precificação encontra o cliente

Cada peça depende da anterior. Sem matriz de margem, não existe preço sugerido. Sem matriz de sensibilidade, a pesquisa de concorrência vira achismo. Sem tolerância, a pesquisa não vira decisão. Sem alçada, o desconto destrói o que foi construído. As próximas seções tratam de cada uma das peças que sustentam essa sequência.

Onde dedicar esforço de pesquisa de concorrência

Pesquisar todos os produtos da farmácia é inviável. Pesquisar nenhum é negligência. A Matriz de Sensibilidade define onde a pesquisa é obrigatória, onde é recomendada e onde a loja pode operar sem pesquisar. A regra deixa de ser intuição e vira critério.

Nível de Sensibilidade Regra de pesquisa Frequência
Ultra SensívelObrigatória — alta atençãoQuinzenal
Super SensívelObrigatória — atenção regularQuinzenal
SensívelRecomendadaMensal
Pouco SensívelOcasionalTrimestral
InsensívelDispensa pesquisa

A regra base sai diretamente da Matriz de Sensibilidade — quanto maior a reação do cliente, maior a obrigação de pesquisar. Mas existe uma exceção que não pode ser ignorada.

Exceção à regra base — produtos de uso contínuo
Produtos de uso contínuo entram na rotina de pesquisa independente da curva ou da faixa de preço. Anti-hipertensivos, antidiabéticos, anticoncepcionais, antidepressivos, anti-asmáticos. O cliente compra todo mês. O gasto é recorrente. Mesmo um produto de curva C ou D, em faixa baixa de preço, é monitorado de perto quando o consumo é mensal. Aplicar só a matriz nesses casos é ignorar o comportamento real do consumidor.

A função da pesquisa é gerar insumo — não decidir preço. O preço continua sendo definido pela combinação da Matriz de Margem (preço sugerido) com a Tolerância de Preço (próxima seção). A pesquisa diz qual é o mercado. A tolerância diz se a loja precisa se ajustar a ele.

O quanto a loja pode estar acima ou abaixo do mercado

Pesquisa de concorrência sem critério de decisão vira ruído. A Tolerância de Preço fecha o ciclo — ela define quando alterar preço e quando preservar margem, a partir da sensibilidade do produto e da faixa de preço em que ele opera.

Sensibilidade Até R$ 19,99 R$ 20–49,99 R$ 50–74,99 R$ 75–99,99 R$ 100–199,99 Acima R$ 200
Ultra Sensível±3%±2,5%±2%±2%±1,5%±1%
Super Sensível±5%±5%±4%±3,5%±2,5%±2%
Sensível±10%±8%±7%±6%±5%±4%
Pouco Sensível±20%±15%±12%±10%±8%±6%
Insensível±30%±25%±20%±18%±15%±12%

Um Ultra Sensível só tolera diferença de ±1% a ±3% em relação ao mercado. Um Insensível tolera ±12% a ±30%. É essa tolerância que orienta a decisão de mexer ou não no preço a cada análise de concorrência. Fora da tolerância, o preço se ajusta. Dentro da tolerância, a margem se preserva.

PF e PMC — a base regulatória da precificação

Produtos de preço controlado têm dois valores fixados pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos), e cada um cumpre função distinta na operação da farmácia:

Os dois preços regulados pela CMED
PF — Preço Fábrica. Teto que a farmácia pode pagar à indústria na compra do produto. É o limite do custo de aquisição.

PMC — Preço Máximo ao Consumidor. Teto que a farmácia pode cobrar do cliente. Vender acima do PMC configura infração. É o limite legal do preço de venda.

O cadastro de preços controlados não é fotografia anual. É filme mensal. Quem só atualiza em março — após o reajuste anual da CMED — trabalha com tabela errada onze meses por ano.

Dois movimentos sustentam essa lógica:

Por que mensal — e não anual
1. A tabela CMED se mexe todo mês. Preços individuais são alterados ao longo do ano por processos específicos da CMED. Por isso a ABC Farma e o Guia da Farmácia publicam atualização mensal.

2. Lançamentos entram no mercado durante o ano. Sem atualização mensal, o cadastro fica defasado e o produto novo não aparece parametrizado para entrar em curva, em matriz de margem e em controle de preço.

Como atualizar. O cadastro completo é baixado da ABC Farma ou do Guia da Farmácia. O arquivo é importado no ERP da farmácia (Alpha 7, Consys, CDS, HOS, Procfit, Trier ou outro). Em seguida, lançamentos do mês e produtos com alteração de preço passam por conferência.

Quem faz. Função do comprador. A atualização do cadastro integra a rotina mensal junto com análise de lançamentos e pesquisa de concorrência. Em operações menores, a função acumula no dono.

Pré-alta — ponto máximo de atenção do ano

O reajuste anual da CMED, vigente a partir de 31 de março, é o evento de maior impacto financeiro do calendário. Concentra alterações em todo o catálogo de preço controlado. O período que antecede o reajuste é chamado de pré-alta: a farmácia antecipa compra para entrar com estoque a custo antigo e vender ao preço novo. A margem temporária pode ser expressiva — mas a operação exige planejamento de fluxo de caixa, espaço físico e parametrização de cobertura para não virar problema.

Cadastro defasado é um Inimigo Oculto da Margem dentro do degrau de precificação. Sabota a Matriz de Margem por baixo — sem o gestor enxergar.

Quem pode dar quanto — onde a precificação encontra o cliente

Precificação não termina na etiqueta. Termina no cupom fiscal. Se o desconto na ponta não tem regra, todo o método anterior vira ficção — a Matriz de Margem é desenhada para o produto, mas a margem real escorre pelo balcão.

Antes da alçada, é preciso distinguir dois tipos de desconto que coexistem na operação:

Os dois tipos de desconto
Desconto de Loja. Negociado pela equipe de vendas no atendimento direto ao cliente. Aplicação exclusiva em medicamentos (ético, genérico, similar). Não medicamento e conveniência ficam de fora — categorias com margem mais estreita ou em que o cliente raramente pede desconto.

Desconto de Cadastro. Definido pela gestão, aplicado direto no sistema. Pode ser usado em todas as categorias, em campanhas, encartes e promoções. É decisão de gestor, não de balconista.

A Alçada de Desconto regula o Desconto de Loja — quanto cada nível de função pode liberar por iniciativa própria, sem precisar escalar a autorização:

Função Alçada de desconto (medicamentos)
Balconista / Perfumista7% a 10%
Chefe de Balcão / Subgerente10% a 20%
Gerente30% a 50%

A lógica da escada é responsabilidade. Quanto mais alta a função, maior a alçada. O balconista resolve a maioria das negociações cotidianas. Casos de cliente fiel, ticket alto ou negociação delicada sobem para chefe de balcão. Desconto pesado depende de gerente — função que enxerga a margem da loja inteira, não só a venda da hora.

Sem alçada, todo balconista vira gerente do próprio desconto. A margem da Matriz vaza pela ponta sem o gestor enxergar. Com alçada, o desconto deixa de ser reflexo e vira decisão consciente. Cada nível de função carrega a responsabilidade do tamanho do desconto que pode conceder.

A tese da seção

Desconto bom é o negociado. Desconto não é direito do cliente — é instrumento de fechamento de venda. Aplicação indiscriminada destrói margem e ainda treina o cliente a pedir mais a cada compra.

O que sustenta toda a precificação: o custo correto

As duas matrizes operam sobre uma única base — o custo médio do produto. Se o custo está errado, o preço sugerido está errado. Se o preço sugerido está errado, a margem real não bate com a margem da matriz. A análise de desvio passa a apontar problemas que não existem — e a deixar passar problemas que existem.

A tese central

Sem custo correto, a Matriz de Margem fica sobre castelo de areia, e a Matriz de Sensibilidade aponta competitividade que não existe.

A Conferência da Entrada de Nota Fiscal é o que protege essa base. Quando uma NF entra com custo errado, o efeito não para na nota — o FIFO + média ponderada fazem o erro ganhar peso a cada venda, distorcendo o custo médio ao longo do tempo.

Por isso a rotina de Análise D-1 (revisão diária das notas do dia anterior) é o degrau anterior obrigatório de qualquer estratégia de precificação. Sem isso, nenhuma das duas matrizes funciona.

Síntese

As cinco peças da precificação calibrada

  1. Matriz de Margem (Categoria × Curva ABC) — define onde a farmácia quer chegar em rentabilidade.
  2. Matriz de Sensibilidade (Curva × Faixa de Preço) — define o quanto o preço pode variar sem perder venda.
  3. Regras de pesquisa de concorrência — orientadas pela sensibilidade, não pelo achismo. Uso contínuo entra mesmo fora da matriz.
  4. Atualização mensal de PF e PMC — mantém a base regulatória correta. Pré-alta é o ponto máximo de atenção.
  5. Alçada de desconto por função — protege a margem na ponta, onde a precificação encontra o cliente.
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Para aprofundar o tema

Sobre o Método

Este artigo é parte da Escada da Maturidade da Gestão

A Escada da Maturidade da Gestão organiza a farmácia rentável em cinco degraus — Estoque, Compras, Preço, Processos e DRE. Cada degrau prepara o seguinte. Conheça o framework completo do Método Gestão Simples.

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