Estoque Mínimo, Estoque Máximo e Ponto de Reposição
Toda regra de compra disciplinada se apoia em três limites operacionais. Cada um responde a uma pergunta diferente da gestão de estoque, e os três funcionam em conjunto. Sem nenhum deles parametrizado, a reposição opera no escuro, depende da memória do comprador, da pressão do representante ou da chegada do fornecedor à porta.
O tempo entre o pedido e a chegada
Lead time é o intervalo, em dias, entre o disparo do pedido e a entrada efetiva da mercadoria no estoque da farmácia. É um parâmetro técnico que precisa ser conhecido por fornecedor.
Cada canal de compra tem seu próprio ritmo de entrega:
- Distribuidor que entrega no dia seguinte
- Distribuidor que leva 3 a 5 dias
- OL que pode levar de 7 a 15 dias
Cada fornecedor tem seu próprio ritmo, e esse ritmo entra direto no cálculo do Ponto de Reposição, porque o objetivo é que o pedido chegue antes do estoque zerar.
Comprar quando atinge o Ponto de Reposição, comprar até o Estoque Máximo
Esta é a hora de responder as duas perguntas que abrem o tema: quando comprar e quanto comprar. Com os três limites parametrizados e o lead time conhecido, as duas respostas deixam de ser palpite. São dois cálculos diferentes, e cada um responde a uma pergunta.
Quando comprar: o Ponto de Reposição
O Ponto de Reposição é o nível de estoque que dispara o pedido. É aqui que o lead time entra. Ele soma, ao Estoque Mínimo, as vendas que vão acontecer durante a espera da entrega. Assim, quando a mercadoria chega, o estoque ainda está no mínimo, e não zerado.
Quanto comprar: repor até o Estoque Máximo
Definido o momento, a quantidade é simples: comprar o suficiente para levar o estoque de volta ao Estoque Máximo. O lead time não entra neste cálculo, porque comprar mais do que o máximo só aumentaria o estoque parado, sem resolver o momento da compra.
Exemplo prático: Losartana 25mg
Considere uma farmácia que vende em média 6 unidades por dia de Losartana 25mg. Os parâmetros operacionais, definidos a partir da Matriz de Cobertura para a categoria genérico, curva A, estabelecem 28 dias de Estoque Máximo, 14 dias de Estoque Mínimo e 2 dias de lead time do fornecedor.
| Venda média diária | 6 un | parâmetro de venda |
| Estoque Máximo | 28 dias | 28 × 6 = 168 un |
| Estoque Mínimo | 14 dias | 14 × 6 = 84 un |
| Lead time | 2 dias | 2 × 6 = 12 un |
| Ponto de Reposição | 96 un | 84 + 12 (mín + lead time) |
| Estoque atual | 96 un | atingiu o Ponto de Reposição |
| Pedido a fazer | 72 un | 168 − 96 (máx − atual) |
Estoque Lógico: o que o parâmetro de cobertura precisa enxergar
Há um detalhe técnico que define se o parâmetro de cobertura funciona ou não na prática. O estoque que entra no cálculo da reposição não é o estoque físico (o que está no chão da loja). É o Estoque Lógico, a soma do estoque físico com o estoque em trânsito (pedidos já feitos ao fornecedor, ainda não entregues).
Quando a farmácia faz um pedido, o fornecedor retorna um arquivo (CSV ou TXT) informando o que conseguiu atender de cada SKU, atendimento integral, parcial ou nenhum. Esse arquivo precisa ser importado de volta no sistema para que o parâmetro de cobertura saiba o que efetivamente está vindo.
Para visualizar o conceito, vale retomar o exemplo da Losartana 25mg. Imagine que o pedido de 72 unidades foi gerado e gravado, e o arquivo de retorno do fornecedor confirmou as 72 unidades como pedido pendente. No dia seguinte, antes da chegada da mercadoria, o parâmetro de cobertura olha para o Estoque Lógico:
| Estoque físico (chão da loja) | 90 un | após a venda do dia |
| Pedido pendente (em trânsito) | 72 un | confirmado pelo fornecedor |
| Estoque Lógico | 162 un | 90 + 72 |
| Acima do Ponto de Reposição (96 un)? | Sim | 162 > 96 → não dispara |
| Pedido a fazer | 0 un | parâmetro reconhece o trânsito |
- Total comprado: 144 un (72 + 72)
- Estoque após chegada: 228 un
- Cobertura: 38 dias (bem acima do Máximo de 28)
- Resultado: excesso. dinheiro parado.
- Total atendido: 0 un (falta no distribuidor)
- Estoque chega a zero no dia 4
- Permanece zerado por pelo menos 9 dias
- Resultado: ruptura. venda perdida.
Quanto tempo um pedido vai durar?
Imagine a cena: o representante da indústria liga oferecendo uma condição agressiva, "compre 200 unidades desse produto que eu te dou um desconto melhor". A pergunta certa não é "vale o desconto?". É "para quantos dias eu estou comprando?".
A conta é simples: a quantidade ofertada dividida pela venda média. Mas a decisão de comprar depende do tipo do produto, da curva, do espaço de prateleira e da margem ganha. A calculadora abaixo entrega o número de dias, a interpretação fica com o comprador.
Como ler o número: se o pedido cobre menos dias do que sua agenda de compras com aquele distribuidor, o desconto pode valer, você não vai carregar excesso. Se cobre muito mais do que a frequência natural daquela categoria, o ganho de margem precisa ser proporcional ao capital que vai ficar parado em estoque.
A visualização do ciclo de reposição
Se o estoque é o coração da farmácia, o Dente de Serra é o eletrocardiograma de cada produto. O gráfico registra a entrada (compra) e a saída (venda) ao longo do tempo, formando um padrão rítmico. Em operação saudável, os dentes são regulares, entrada esperada, saída previsível, ciclo limpo. Irregularidades no traçado são o primeiro sinal de que algo na regra de reposição não está funcionando.
O gráfico abaixo mostra os 40 dias de operação da Losartana 25mg em dois cenários: o primeiro com a regra de reposição funcionando corretamente (dentes regulares); o segundo simula o que acontece quando a regra falha e o pedido é feito em duplicidade, cobertura excessiva por dias seguidos, capital travado.
Quando o parâmetro de cobertura de estoque não se aplica
O parâmetro de cobertura de estoque cobre a maioria das decisões de compra da farmácia. Mas existem três situações em que aplicar a fórmula pura gera resultado errado, são exceções que confirmam a regra. Cada uma tem racional próprio e ponto de atenção próprio.
Faceamento
O que é: produtos que precisam ter unidades visíveis na exposição para sustentar uma estratégia comercial, cestões, pontas de gôndola, pontos extras, ilhas promocionais. O Estoque Máximo desses itens é maior do que o parâmetro de cobertura puro calcularia, porque o espaço físico exige presença visual mesmo com giro abaixo da média.
Quando se aplica: por estratégia da loja (campanha sazonal, ponto extra de margem) ou por acordo comercial com a indústria (verba de exposição em troca de presença mantida).
Financiamento
O que é: aposta deliberada da loja em colocar mais unidades de um produto do que a média de venda atual recomendaria, confiando que o produto vai girar mais com presença ampliada. O nome "financiamento" vem da ideia de que alguém está apostando que o giro vai aparecer depois.
Cinco aplicações típicas:
- Lançamentos: produto novo sem histórico de venda, não há média confiável a aplicar.
- Novos SKUs de família: nova fragrância de um desodorante curva AA, nova versão de um item já consagrado.
- Ajuste de mix por região: inclusão de produto após estudo de IQVIA ou CloseUp que mostra giro forte na região, mesmo a loja ainda não tendo histórico.
- Especialidades e vacinas: baixíssimo giro, mas estratégicos para manter perfil de loja completa.
- Reposicionamento de mix: produtos que a loja decide passar a oferecer com profundidade, virar referência local.
Produtos bloqueados
O que é: SKUs que precisam ser excluídos do parâmetro de cobertura automático, descontinuados, em revisão de qualidade, com problema regulatório, descadastrados. O sistema não pode mais sugerir compra desses itens.
O caso mais comum e mais crítico: produtos que entraram em SG120 (sem giro há mais de 120 dias) e estão em ação de venda, promoção, queima, transferência para outra loja. Se o item não for bloqueado, acontece a armadilha clássica:
A maioria das farmácias independentes compra sem os três limites parametrizados. A reposição segue a memória do comprador, a oferta do representante ou o dia que o fornecedor bate na porta. Sem parâmetro, o pedido vira palpite.
O palpite erra para os dois lados. Compra a mais em uns itens: dinheiro parado na prateleira, com risco de vencer antes de vender. Compra a menos em outros: ruptura, o cliente chega e não encontra. Excesso e ruptura convivem na mesma loja, ao mesmo tempo.
O dono olha o estoque total e acha que está tudo certo. Mas o problema não está no total. Está produto a produto, e aparece onde ele mais sente: no caixa. Os três limites parametrizados, com o tratamento correto das três exceções, organizam a reposição e protegem o caixa da loja.
Comprar olhando o caixa, não só a prateleira
A farmácia independente raramente decide pelo DRE. Quem toca a loja enxerga pelo fluxo de caixa: o que entra e o que sai, dia a dia. Por isso, comprar bem não é só acertar a quantidade. É acertar também o dia em que a conta vai chegar.
Todo pedido gera um boleto com data de vencimento. Se vários boletos caem no mesmo dia, e ainda coincidem com imposto, aluguel ou folha, o caixa daquele dia estoura. A compra estava certa no estoque, mas errada no caixa. A boa prática é olhar o caixa antes de fechar o pedido.
O passo a passo antes de fechar a compra
Exemplo: o pedido que cairia no dia 20
Uma farmácia costuma ter cerca de R$ 15 mil de folga de caixa por dia. Ao montar um pedido de mercadoria com prazo de 21 dias, o comprador percebe que o vencimento cairia no dia 20, a mesma data em que costuma pagar o ICMS. O mapa de vencimentos mostra o acúmulo daquele dia:
No dia 20, ICMS e folha já somam R$ 14 mil. O pedido de R$ 12 mil levaria o total a R$ 26 mil, muito acima da folga de R$ 15 mil. Enxergando isso antes de fechar, o comprador negocia o prazo para o vencimento cair no dia 21, que está com folga. Mesma compra, mesmo fornecedor, mas sem apertar o caixa.
Como implantar a Matriz de Cobertura de Estoque na farmácia
A implantação dos três limites é trabalho de parametrização, não de talento. Cinco passos consolidam o parâmetro e fazem a reposição operar sozinha, a partir daí, a atenção do comprador fica reservada para o que importa: negociação, mix e exceções.
As três disciplinas que sustentam um estoque saudável
A Matriz de Cobertura de Estoque não funciona isolada, o estoque saudável é consequência de três disciplinas que protegem a margem e potencializam as vendas. Os materiais abaixo aprofundam cada base.
Cinco pontos para sair com o estoque saudável
- Três limites sustentam toda regra de compra. Estoque Mínimo (limite de segurança), Estoque Máximo (limite financeiro) e Ponto de Reposição (gatilho da compra). Sem os três parametrizados, a reposição opera no escuro.
- Lead time é parte da fórmula, não detalhe. O tempo entre o pedido e a chegada da mercadoria entra direto no cálculo do volume a comprar. Lead time confiável vem do histórico do fornecedor, não da promessa do representante.
- Comprar quando atinge o Ponto de Reposição, comprar até o Estoque Máximo. A regra é simples e objetiva. O cálculo do pedido considera os três limites e o lead time. Aplicada com disciplina, a Matriz de Cobertura de Estoque transforma compra em rotina objetiva.
- O Dente de Serra é o eletrocardiograma do estoque, e o Estoque Lógico é o que o parâmetro de cobertura precisa enxergar. Estoque Lógico é o estoque físico somado ao estoque em trânsito. Se o pedido não é gravado, o parâmetro duplica compra. Se o arquivo de retorno do fornecedor não é importado, o sistema acredita que vai chegar mais do que vai chegar, e a ruptura aparece silenciosamente, descoberta só na entrada da nota fiscal. Os dois passos juntos é o que torna o parâmetro operacional na prática.
- As três exceções precisam de tratamento explícito. Faceamento eleva o máximo por estratégia comercial; financiamento autoriza compra acima do limite por aposta deliberada; produtos bloqueados saem do parâmetro para que a venda de queima não ressuscite o item via média de venda. Sem exceções tratadas, o parâmetro começa a errar nos casos onde mais se atende.
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Este artigo é parte da Escada da Maturidade da Gestão
A Escada da Maturidade da Gestão organiza a farmácia rentável em cinco degraus, Estoque, Compras, Preço, Processos e DRE. Cada degrau prepara o seguinte. Conheça o framework completo do Método Gestão Simples.
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